Sustentabilidade e altruísmo: o segredo para um futuro melhor

Comportamento outubro 20, 2015

|Porque deixar de olhar primeiro para o nosso umbigo pode ser a salvação da humanidade.

Arthur e sua atual dimensão do planeta Terra.

Arthur e sua atual dimensão do planeta Terra.

Sustentabilidade é a palavrinha do momento. Tá todo mundo dizendo por ai que é sustentável ou que adota práticas sustentáveis. Desde marcas, instituições e produtos até mães de primeira viagem. 😉

Mas você sabe exatamente o que é Sustentabilidade?

O assunto pode parecer chato e para muitos, pouco prioritário, coisa para governo, ambientalistas e ecochatos discutirem entre si.

Acontece que as questões que envolvem esse tema não são chatas (ou pelo menos não deveriam ser vistas assim). São, na verdade, trágicas e preocupantes e implicam a todos nós: eu, você, o vizinho, o dono da padaria … Vivemos todos num mesmo planeta e todos seremos afetados se continuarmos ignorando o que nele acontece e minimizando nossas responsabilidades como indivíduos.

A definição formal de desenvolvimento sustentável foi criada em 1987 através de uma publicação feita pela Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento – o Relatório Brundtland intitulado “Nosso Futuro Comum” – e diz que é o “desenvolvimento que atende as necessidades da geração atual sem comprometer a capacidade das gerações futuras em garantir suas próprias necessidades”.

De forma mais prática, podemos entender desenvolvimento sustentável ou sustentabilidade como a capacidade que temos de usufruir daquilo que o ambiente nos oferece, dentro de seus limites e de forma equilibrada, a fim de permitir que todos os recursos necessários à vida se conservem para as próximas gerações.

É por isso que o termo não envolve apenas o aspecto ambiental como muitos pensam (ser sustentável não é só “ser verde”), pois, para que qualquer sistema ou sociedade se sustente, as questões do meio ambiente devem se harmonizar com as questões sociais, econômicas e culturais. (1) Segundo Luiz Carlos Cabrera, professor da Eaesp-FGV, “toda atividade que envolve e aglutina pessoas tem uma regra clara: para ser sustentável, precisa ser economicamente viável, socialmente justa, culturalmente aceita e ecologicamente correta”.

A crise planetária que vivemos hoje em dia tem a ver com o trio aparentemente inofensivo: produção, consumo e descarte. Já ouviu falar nisso?

A forma como enxergamos essa relação, algo que parece tão inerente às nossas vidas (e de fato é), tem sido responsável pelas degradações ambientais mais graves dos últimos tempos. Estou falando das mudanças climáticas, do acúmulo de gás carbônico na atmosfera, das secas, do desmatamento nas florestas, do esgotamento do solo, da perda da biodiversidade, que resultam em ameaças ao fornecimento de água potável, alimentos e tudo aquilo que precisamos para sobreviver.

Com a justificativa de progresso econômico e com uma lógica capitalista de lucros cada vez mais altos para os acionistas, a indústria, a partir da Revolução Industrial e com intensidade no século XXI, elevou ao extremo sua produção de bens de consumo e através de ferramentas de marketing como a publicidade, convenceu nossa sociedade de que ela não poderia viver mais sem todos aqueles itens produzidos.

Criou-se assim a sociedade de consumo, formada por pessoas que, seduzidas por uma mídia implacável, passaram a condicionar felicidade e bem estar à posse de coisas, tornando o ato de comprar um círculo vicioso gerado em decorrência de uma constante insatisfação que desperta o desejo de querer sempre mais.

Imagine a quantidade de matérias-primas, água e energia são necessárias para produzir em grande escala? Ainda que se os resultados dessa produção fossem bens que pudessem durar por muitos anos, talvez os impactos no meio-ambiente fossem bem menores. Mas o que acontece é que muitos desses produtos são fabricados pra existir por pouco tempo, aplicando-se o conceito da obsolescência programada, em que a ideia é desenvolver algo com tempo de vida útil reduzido pra logo ser descartado e um novo ser comprado.

Mesmo não sendo esse o caso, a sociedade criou o seu próprio estilo de vida descartável. Compra-se motivado pelo impulso e pela moda, que quando passa, faz o produto passar também. Ele vira lixo, é jogado na natureza, e mais um item novo é comprado para se fazer repetir o mesmo ciclo. No meio disso tudo, as indústrias estão a todo vapor, produzindo não só o que o mercado demanda, mas materiais prejudiciais ao meio ambiente e à vida humana, como resíduos e gases tóxicos.

O ponto é que o planeta chegou ao seu limite. Para atender um ritmo de produção e consumo acelerados ao longo de décadas, retiramos da natureza muito mais do que ela poderia oferecer e agora ela não consegue mais se regenerar.

Há 15 anos a Global Footprint Network calcula quantos dias do ano a Terra consegue suportar nossa demanda por consumo. A partir de uma data calculada, tudo o que passamos a consumir excede a capacidade que a Terra tem de repor o que dela é extraído, fazendo-nos entrar numa situação de débito com a natureza.

A data calculada é chamada de Dia da Sobrecarga da Terra e a cada ano ela chega mais cedo no mundo. Esse ano, em 13 de agosto, já havíamos utilizado toda a cota de recursos naturais disponíveis. Até o ano finalizar, tudo o que extrairmos do planeta, causará danos irreversíveis a ele, o que implica em desequilíbrios ambientais ainda mais profundos.

se todas as pessoas do planeta consumissem como a média mundial consome, seria necessário 1,5 planeta para sustentar nossos estilos de vida. (imagem original: WikiImages |CC0 Public Domain)

se todas as pessoas do planeta consumissem como a média mundial consome, seria necessário 1,5 planeta para sustentar nossos estilos de vida.
(imagem original: WikiImages |CC0 Public Domain)

Com um cenário que se desenha catastrófico, será que a mudança de trajetória para caminhos mais sustentáveis pode reverter tudo isso?

Estudiosos dizem que sim, desde que alterações definitivas aconteçam em nosso comportamento.

O monge Matthieu Ricard também diz que sim.  Seu conselho, digno de um ser mais espiritualizado, é utilizarmos o altruísmo como guia.

Com 69 anos de idade, Matthieu Ricard, PhD em biologia molecular pelo Instituto Pasteur e um dos monges mais respeitados do Himalaia, se apresentou em uma palestra do Ted Talks, já bastante divulgada na internet, pra dizer que o altruísmo é uma solução real, possível a qualquer um de nós, para todos os desafios da humanidade, especialmente aqueles que envolvem as questões socioambientais:

“A mim, parece que só há um conceito que pode conciliar essas três escalas de tempo (a economia a curto prazo, a qualidade de vida a médio prazo e o meio ambiente a longo prazo): simplesmente, ter mais consideração pelos outros.”

Vale a pena ouvir o que ele diz a respeito desse assunto. Tendo um tempinho, assista sua palestra clicando aqui embaixo:

ted

No final das contas, acredito que consciência e coração abertos é o que mais precisamos. Entender que nosso ato de consumo é oportunidade poderosa para impactarmos positivamente (ou negativamente) na vida de alguém, fundamentar nossas escolhas em princípios de bondade, ética e justiça, sair de uma posição egocêntrica, aquela que nos faz agir pensando só em nós mesmos, para uma que valorize o coletivo e passar a se preocupar com o que acontecerá a longo prazo não só conosco mas com toda a humanidade são atitudes que favorecem a mudança de nossos valores.

Uma postura egoísta nos induziria a agir de forma bem inconsequente, afinal, como bem comenta Matthieu no vídeo, porque abriríamos mão de viver como bem entendemos e a qualquer custo se daqui cem anos não estaremos mais aqui?

Veja, ainda que nenhuma razão importe e sensibilize, existe aquela que fatalmente nos convidará a no mínimo, repensarmos a maneira como enxergamos tudo isso: nossos filhos.

Eles e suas próximas gerações colherão os frutos de nossas ações e essa, por si só, é razão forte o suficiente para começarmos a fazer aquilo que está ao nosso alcance.

Referências:

(1) dito para a Revista Você S/A através do Planeta Sustentável
http://planetasustentavel.abril.com.br/noticia/desenvolvimento/conteudo_474382.shtml

(2) Fonte: http://w ww.wwf.org.br/natureza_brasileira/especiais/pegada_ecologica/overshootday