Slow Parenting: um movimento para desacelerar o ritmo das crianças

Comportamento novembro 26, 2015

| Em tempos em que a infância se tornou uma corrida rumo à perfeição e ao sucesso, o Slow Parenting ganha força para defender o pé no freio.

Sophia fofinha aos 5 anos!

Sophia amava um parquinho, aos 5 anos!

Sophia, minha enteada de 10 anos, acaba de finalizar as últimas provas da escola e está ansiosa para o período mais esperado do ano: as férias de verão.

Não só para a Sophia, mas para toda a criançada em idade escolar, serão mais de oito semanas livres da rotina de estudos e minha torcida sincera é para que seus pais consigam estar mais disponíveis para aproveitarem juntos esses momentos, sem pressa, sem stress e sem obrigações.

Infelizmente, em muitas famílias, nem as férias escapam à necessidade de preenchimento do tempo vago das crianças. Há pais que já se programaram e lotaram o calendário de férias de seus pequenos para que se ocupem com atividades extracurriculares ao longo desse período. Entram nessa roda, balé, judô, natação, música, coral, pintura, desenho, teatro, inglês e toda sorte de coisas “importantes” que não deu tempo de realizar de fevereiro a dezembro. Uma verdadeira sobrecarga, não diferente do ano inteiro que passou.

Como forma de conter essa loucura característica dos tempos atuais, em que pais se vêem preocupados e pressionados a super educar e bem formar os seus filhos para que se tornem adultos de sucesso, um movimento iniciado na Europa e nos EUA cresce e ganha espaço no mundo todo com a proposta de desaceleração da rotina das crianças.

Estou falando do Slow Parenting ou movimento dos “pais sem pressa”, propagado fortemente pelo jornalista e escritor escocês Carl Honoré. Carl passou a promover a filosofia da lentidão depois de ter vivenciado situações com seus próprios filhos que, segundo ele, serviram para lhe mostrar que a dinâmica apressada de sua família não estava mais funcionando bem.

A busca por canções de ninar de um minuto, o hábito de apressar o final das clássicas histórias de dormir e o desejo de transformar seu filho em um “Picaso” quando ele somente queria desenhar, são só alguns exemplos do comportamento que o jornalista passou a julgar inadequado quando decidiu repensar a sua forma de exercer a paternidade.

O movimento Slow, que se expressa em uma série de “categorias” (slow food, slow fashion, slow design, slow life, etc), caiu como uma luva quando direcionado para as crianças porque sugere o resgate daquilo que deveria ser o mais natural, mas que foi invertido ao longo de décadas: a verdadeira infância.

Tempo livre pra brincar e espaço para explorar o mundo dentro de seus próprios pontos de vistas diz respeito ao que o Slow Parenting propõe.

Não se trata de fazer as coisas de forma lenta, no ritmo de um caracol, mas de fazer na velocidade certa.

Tem a ver com priorizar qualidade ao invés de quantidade, promover conexões humanas, reais e significativas e, estar presente no momento.

Tem a ver também em permitir que os filhos externem o que eles são e não o que os pais desejam que eles sejam.

Tem a ver em não achar que o ócio, o descanso e o não fazer nada é só tempo perdido.

Tem a ver com cuidar do tempo junto, ainda que ele seja curto, doando sempre amor e atenção em qualquer condição.

Conheça mais:

# Ted Talks: Carl Honore homenageia a lentidão e fala nessa palestra sobre comportamentos acelerados, viver a vida com pressa e o movimento slow com suas variações.

# Livros:

Devagar_CarlHonore_SlowParenting
Best-seller lançado em 25 países, Devagar: Como um movimento mundial está desafiando o culto da velocidade, fala a respeito de nossa relação com o tempo e sobre as conseqüências que viver de forma acelerada traz às nossas vidas. Uma reflexão para aqueles que estão sempre com pressa lamentando a falta de tempo em seu dia-a-dia.

Sob Pressão_CarlHonore

Sob Pressão é um alerta aos pais que transformaram a infância de seus filhos em uma corrida em busca do sucesso. Usando os filhos como forma de viver a própria vida ou compensar as frustrações pessoais, os adultos destruíram a magia e a inocência da infância. Carl Honoré explica nesse livro como o moderno enfoque da infância é um completo fracasso e quais são os desafios para que essa situação seja revertida.

# Slow Kids:

No Brasil, o Slow Kids é o nome dado ao evento que promove a desaceleração do ritmo das crianças e das famílias em um encontro com muita brincadeira ao ar livre, shows, piqueniques e oficinas. Sua primeira edição aconteceu em 2013, no Parque da Água Branca, em São Paulo. No ano passado foi a vez do Museu da Casa Brasileira e do Parque Burle Marx recebê-lo. Esse ano mais duas edições aconteceram, no Parque Burle Marx e no Parque Villa Lobos, essa última com programação o dia todo.

O que a sustentabilidade pode ensinar aos nossos filhos

Comportamento outubro 27, 2015

| Os valores que mais desejamos que nossos filhos aprendam podem ser estimulados se proporcionarmos experiências mais sustentáveis em suas vidas diárias. 

CC0 Public Domain / cherylholt

CC0 Public Domain / cherylholt

Não há pai e mãe que não se preocupe em encontrar o melhor caminho para a educação do seu filho.

Eu, que ainda tenho um bebê em casa, já fico aqui perguntando aos meus botões se a forma que penso em educá-lo será a mais correta ou se conseguirei plantar em sua vida a sementinha dos bons valores e dos bons hábitos.

Creio que a insegurança e os questionamentos são naturais, afinal, não existe um passe de mágica que transforme nossos filhos, da noite para o dia, em pessoas com caráter, humanas e preparadas para enfrentar a vida. A única certeza que temos é que nós seremos o seu maior referencial e nossas atitudes e comportamentos, seus maiores exemplos.

As crianças precisam ser estimuladas desde cedo a aprender sobre as questões socioambientais e orientadas a todo o momento a respeito das conseqüências de suas ações e a sustentabilidade pode contribuir com a nossa tarefa de educar nossos pequenos já que eles terão a oportunidade de se conectar à valores importantes através de suas próprias vivências. O adulto só precisa fazer a sua parte em propiciar que essas experiências aconteçam.

Veja só um outro ponto de vista a respeito do que já falamos anteriormente:

quando possibilitamos que a criança consuma alimentos saudáveis, orgânicos, cultivados por pequenos produtores que tenham trabalhado em condições adequadas e com salários justos, promovemos a preocupação com o próximo, a compaixão, o respeito e a saúde.

quando oferecemos a oportunidade para que a criança conheça a origem dos produtos expostos no supermercado, que leiam rótulos, que identifiquem selos e certificações promovemos o consumo consciente com a reflexão sobre a história daqueles itens, quem os produziu, de que forma, com quais matérias-primas, sob quais custos humanos e ambientais.

quando estimulamos a criança para que separe o seu lixo em casa ou ainda, na rua, guarde o seu lixo até encontrar uma lixeira, promovemos o senso de coletividade, cidadania, ordem e limpeza.

quando incentivamos que a criança troque seus brinquedos e livros ao invés de encostá-los ou que realize doações periódicas daquilo que não lhe serve mais, promovemos o desapego às coisas materiais, o compartilhamento, a sensibilidade e a solidariedade.

quando orientamos para que a criança reduza o seu tempo no banho, apague as luzes quando sai do ambiente ou abra a torneira somente quando necessário, promovemos a valorização dos recursos da natureza e a economia financeira.

quando dividimos com a criança o hábito de compostar as sobras de alimentos, de reciclar os seus resíduos e aproveitar ao máximo qualquer objeto, promovemos o não desperdício dos alimentos e das coisas, assim como a redução do lixo no planeta.

quando incentivamos brincadeiras ao ar livre e atividades que não incluam a televisão, como ler histórias, ouvir música, desenhar ou pintar, promovemos a criatividade, a imaginação, a independência de brinquedos eletrônicos e estruturados e o afastamento da publicidade infantil, que só estimula o consumismo.

quando escolhemos por passeios a céu aberto como praças, parques e zoológicos promovemos o contato com a natureza, a prática de atividades físicas, aprendizados sobre a fauna e a flora e a economia de dinheiro.

Se exercitarmos um pouco mais, certamente encontraremos muitos outros valores que poderão ser aprendidos se seguirmos por uma trilha mais coerente.

E você ai?
Percebe como a prática da sustentabilidade provoca valores realmente importantes em seus filhos?
O que tem feito para levá-los a viver com mais consciência?

Sustentabilidade e altruísmo: o segredo para um futuro melhor

Comportamento outubro 20, 2015

|Porque deixar de olhar primeiro para o nosso umbigo pode ser a salvação da humanidade.

Arthur e sua atual dimensão do planeta Terra.

Arthur e sua atual dimensão do planeta Terra.

Sustentabilidade é a palavrinha do momento. Tá todo mundo dizendo por ai que é sustentável ou que adota práticas sustentáveis. Desde marcas, instituições e produtos até mães de primeira viagem. 😉

Mas você sabe exatamente o que é Sustentabilidade?

O assunto pode parecer chato e para muitos, pouco prioritário, coisa para governo, ambientalistas e ecochatos discutirem entre si.

Acontece que as questões que envolvem esse tema não são chatas (ou pelo menos não deveriam ser vistas assim). São, na verdade, trágicas e preocupantes e implicam a todos nós: eu, você, o vizinho, o dono da padaria … Vivemos todos num mesmo planeta e todos seremos afetados se continuarmos ignorando o que nele acontece e minimizando nossas responsabilidades como indivíduos.

A definição formal de desenvolvimento sustentável foi criada em 1987 através de uma publicação feita pela Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento – o Relatório Brundtland intitulado “Nosso Futuro Comum” – e diz que é o “desenvolvimento que atende as necessidades da geração atual sem comprometer a capacidade das gerações futuras em garantir suas próprias necessidades”.

De forma mais prática, podemos entender desenvolvimento sustentável ou sustentabilidade como a capacidade que temos de usufruir daquilo que o ambiente nos oferece, dentro de seus limites e de forma equilibrada, a fim de permitir que todos os recursos necessários à vida se conservem para as próximas gerações.

É por isso que o termo não envolve apenas o aspecto ambiental como muitos pensam (ser sustentável não é só “ser verde”), pois, para que qualquer sistema ou sociedade se sustente, as questões do meio ambiente devem se harmonizar com as questões sociais, econômicas e culturais. (1) Segundo Luiz Carlos Cabrera, professor da Eaesp-FGV, “toda atividade que envolve e aglutina pessoas tem uma regra clara: para ser sustentável, precisa ser economicamente viável, socialmente justa, culturalmente aceita e ecologicamente correta”.

A crise planetária que vivemos hoje em dia tem a ver com o trio aparentemente inofensivo: produção, consumo e descarte. Já ouviu falar nisso?

A forma como enxergamos essa relação, algo que parece tão inerente às nossas vidas (e de fato é), tem sido responsável pelas degradações ambientais mais graves dos últimos tempos. Estou falando das mudanças climáticas, do acúmulo de gás carbônico na atmosfera, das secas, do desmatamento nas florestas, do esgotamento do solo, da perda da biodiversidade, que resultam em ameaças ao fornecimento de água potável, alimentos e tudo aquilo que precisamos para sobreviver.

Com a justificativa de progresso econômico e com uma lógica capitalista de lucros cada vez mais altos para os acionistas, a indústria, a partir da Revolução Industrial e com intensidade no século XXI, elevou ao extremo sua produção de bens de consumo e através de ferramentas de marketing como a publicidade, convenceu nossa sociedade de que ela não poderia viver mais sem todos aqueles itens produzidos.

Criou-se assim a sociedade de consumo, formada por pessoas que, seduzidas por uma mídia implacável, passaram a condicionar felicidade e bem estar à posse de coisas, tornando o ato de comprar um círculo vicioso gerado em decorrência de uma constante insatisfação que desperta o desejo de querer sempre mais.

Imagine a quantidade de matérias-primas, água e energia são necessárias para produzir em grande escala? Ainda que se os resultados dessa produção fossem bens que pudessem durar por muitos anos, talvez os impactos no meio-ambiente fossem bem menores. Mas o que acontece é que muitos desses produtos são fabricados pra existir por pouco tempo, aplicando-se o conceito da obsolescência programada, em que a ideia é desenvolver algo com tempo de vida útil reduzido pra logo ser descartado e um novo ser comprado.

Mesmo não sendo esse o caso, a sociedade criou o seu próprio estilo de vida descartável. Compra-se motivado pelo impulso e pela moda, que quando passa, faz o produto passar também. Ele vira lixo, é jogado na natureza, e mais um item novo é comprado para se fazer repetir o mesmo ciclo. No meio disso tudo, as indústrias estão a todo vapor, produzindo não só o que o mercado demanda, mas materiais prejudiciais ao meio ambiente e à vida humana, como resíduos e gases tóxicos.

O ponto é que o planeta chegou ao seu limite. Para atender um ritmo de produção e consumo acelerados ao longo de décadas, retiramos da natureza muito mais do que ela poderia oferecer e agora ela não consegue mais se regenerar.

Há 15 anos a Global Footprint Network calcula quantos dias do ano a Terra consegue suportar nossa demanda por consumo. A partir de uma data calculada, tudo o que passamos a consumir excede a capacidade que a Terra tem de repor o que dela é extraído, fazendo-nos entrar numa situação de débito com a natureza.

A data calculada é chamada de Dia da Sobrecarga da Terra e a cada ano ela chega mais cedo no mundo. Esse ano, em 13 de agosto, já havíamos utilizado toda a cota de recursos naturais disponíveis. Até o ano finalizar, tudo o que extrairmos do planeta, causará danos irreversíveis a ele, o que implica em desequilíbrios ambientais ainda mais profundos.

se todas as pessoas do planeta consumissem como a média mundial consome, seria necessário 1,5 planeta para sustentar nossos estilos de vida. (imagem original: WikiImages |CC0 Public Domain)

se todas as pessoas do planeta consumissem como a média mundial consome, seria necessário 1,5 planeta para sustentar nossos estilos de vida.
(imagem original: WikiImages |CC0 Public Domain)

Com um cenário que se desenha catastrófico, será que a mudança de trajetória para caminhos mais sustentáveis pode reverter tudo isso?

Estudiosos dizem que sim, desde que alterações definitivas aconteçam em nosso comportamento.

O monge Matthieu Ricard também diz que sim.  Seu conselho, digno de um ser mais espiritualizado, é utilizarmos o altruísmo como guia.

Com 69 anos de idade, Matthieu Ricard, PhD em biologia molecular pelo Instituto Pasteur e um dos monges mais respeitados do Himalaia, se apresentou em uma palestra do Ted Talks, já bastante divulgada na internet, pra dizer que o altruísmo é uma solução real, possível a qualquer um de nós, para todos os desafios da humanidade, especialmente aqueles que envolvem as questões socioambientais:

“A mim, parece que só há um conceito que pode conciliar essas três escalas de tempo (a economia a curto prazo, a qualidade de vida a médio prazo e o meio ambiente a longo prazo): simplesmente, ter mais consideração pelos outros.”

Vale a pena ouvir o que ele diz a respeito desse assunto. Tendo um tempinho, assista sua palestra clicando aqui embaixo:

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No final das contas, acredito que consciência e coração abertos é o que mais precisamos. Entender que nosso ato de consumo é oportunidade poderosa para impactarmos positivamente (ou negativamente) na vida de alguém, fundamentar nossas escolhas em princípios de bondade, ética e justiça, sair de uma posição egocêntrica, aquela que nos faz agir pensando só em nós mesmos, para uma que valorize o coletivo e passar a se preocupar com o que acontecerá a longo prazo não só conosco mas com toda a humanidade são atitudes que favorecem a mudança de nossos valores.

Uma postura egoísta nos induziria a agir de forma bem inconsequente, afinal, como bem comenta Matthieu no vídeo, porque abriríamos mão de viver como bem entendemos e a qualquer custo se daqui cem anos não estaremos mais aqui?

Veja, ainda que nenhuma razão importe e sensibilize, existe aquela que fatalmente nos convidará a no mínimo, repensarmos a maneira como enxergamos tudo isso: nossos filhos.

Eles e suas próximas gerações colherão os frutos de nossas ações e essa, por si só, é razão forte o suficiente para começarmos a fazer aquilo que está ao nosso alcance.

Referências:

(1) dito para a Revista Você S/A através do Planeta Sustentável
http://planetasustentavel.abril.com.br/noticia/desenvolvimento/conteudo_474382.shtml

(2) Fonte: http://w ww.wwf.org.br/natureza_brasileira/especiais/pegada_ecologica/overshootday